Fundo de maneio e dívida líquida: porque o preço acordado não é o que entra na sua conta

Fundo de maneio e dívida líquida: porque o preço acordado não é o que entra na sua conta
Fundo de maneio e dívida líquida: porque o preço acordado não é o que entra na sua conta
Imagine a cena: depois de meses de conversas, chegou a acordo sobre quanto vale a sua empresa. Aperta a mão, comemora — e, semanas depois, na hora de fechar, o valor que entra na sua conta é bastante diferente do número em que pensou o tempo todo. Não houve batota nem letra pequena escondida. Houve dois ajustes que quase todos os donos de PME desconhecem até estarem em cima deles: a dívida líquida e o fundo de maneio. Perceber estes dois mecanismos antes de ir ao mercado é o que separa um vendedor tranquilo de um vendedor surpreendido.
Do valor da empresa ao valor para o vendedor: há uma ponte
O primeiro passo é distinguir duas coisas que a linguagem do dia a dia mistura. Uma é o valor do negócio a operar — quanto vale a atividade em si, a capacidade de gerar resultados, independentemente de como está financiada. Outra é o valor que chega ao vendedor — o cheque final, depois de contas feitas. Entre os dois há uma ponte, construída com ajustes. Quando um comprador diz "compro o negócio por X", está normalmente a falar do primeiro valor. O que aterra na sua conta é o segundo. Ignorar esta distinção é a origem da maior parte das deceções à mesa de negociações.
Dívida líquida: o primeiro ajuste
A dívida líquida é o primeiro degrau dessa ponte. Do valor acordado para a empresa retira-se aquilo que ela deve — financiamentos bancários, leasings, suprimentos — e soma-se o dinheiro que tem em caixa. Ou seja: dívida financeira menos tesouraria disponível. É por isto que duas empresas com o mesmo valor de atividade podem pagar cheques muito diferentes aos donos, consoante o passivo que carregam. Se este ponto é novo para si, vale a pena aprofundar como a dívida entra na equação antes de tomar decisões precipitadas sobre o passivo.
Fundo de maneio: o ajuste que ninguém vê chegar
Este é o mecanismo que apanha mais vendedores de surpresa. Quando um comprador adquire a sua empresa, espera recebê-la a funcionar no primeiro dia — com stock suficiente nas prateleiras, com os clientes a dever o normal e com os fornecedores pagos dentro dos prazos habituais. A esse nível de funcionamento chama-se fundo de maneio: grosso modo, o dinheiro "preso" na operação (existências e valores a receber) menos aquilo que ainda está por pagar a curto prazo.
O comprador negoceia partindo do princípio de que a empresa é entregue com um nível de fundo de maneio "normal" para aquele negócio. Se, nas semanas antes do fecho, o dono esvaziar o stock, cobrar tudo à pressa e adiar pagamentos para "levantar" dinheiro, está a entregar a empresa mais fraca do que o acordado — e o preço ajusta-se para baixo. O inverso também acontece: uma empresa entregue com fundo de maneio acima do habitual pode justificar um acerto a favor do vendedor. A lição prática é simples: não desmonte a operação nas vésperas da venda a pensar que está a ganhar; muito provavelmente está apenas a antecipar um ajuste que lhe será descontado.
Como se prepara para não ser apanhado de surpresa
Três hábitos protegem-no. Primeiro, conheça os seus números de tesouraria ao longo do ano: quanto stock é normal, quantos dias demora a cobrar dos clientes, quantos dias leva a pagar aos fornecedores. Sem esta noção, não consegue discutir o que é um nível "normal" de fundo de maneio. Segundo, estabilize a operação nos meses que antecedem a venda, em vez de a manipular — a consistência transmite confiança e defende o preço. Terceiro, peça que estes ajustes fiquem definidos por escrito e cedo, idealmente já na carta de intenções, para não os discutir à pressa no dia do fecho, quando o poder negocial do vendedor é mais frágil.
Onde isto se decide — e quando pedir ajuda
A forma exata de calcular a dívida líquida e o fundo de maneio, e de os refletir no contrato, varia com o tipo de negócio e com a estrutura da operação. Tem implicações contabilísticas, jurídicas e fiscais que devem ser avaliadas caso a caso. Este artigo ajuda a enquadrar a decisão, mas não substitui aconselhamento sobre a sua situação concreta. Sente à mesa, cedo, o seu contabilista e um consultor que já tenha estruturado vendas semelhantes: é aí que a ponte entre o valor da empresa e o valor para si se defende.
Para ir mais fundo, veja porque o fluxo de caixa conta mais do que o lucro contabilístico e, se tem imóveis na empresa, como separar o património do negócio antes de vender.
O preço acordado é só o início da conta. Quem entende a dívida líquida e o fundo de maneio chega ao fecho sem sustos e negoceia de posição de força. Se quer perceber, em confiança, o que a estrutura financeira da sua empresa significa para o valor que vai efetivamente receber, fale com um especialista da Transworld numa conversa confidencial.
Preparado para o próximo passo na sua jornada empreendedora?

